Este texto trata do olhar analítico sobre o território. Não pretendemos abordar diretamente os conceitos que envolvem o desenvolvimento social, o espaço geográfico e a relação disto na vida dos indivíduos e na transformação do ambiente.

Queremos primeiramente, exercitar a percepção destes elementos, mostrar como estamos conectados ao ambiente que nos cerca e ao chão que ocupamos. O texto também busca alertar à técnicos e pesquisadores em suas análises e diagnósticos socioterritoriais, para a importância de considerar aspectos físicos, ambientais e antrópicos, na escolha da área de abrangência dos estudos, evitando limitar-se às clássicas divisões políticas.

PRELÚDIO _ Estamos em um período de grande produção de informações, com o processamento de extensas quantidades de dados estatísticos, assim como a crescente disponibilidade de ferramentas para o georreferenciamento. Estes recursos avançam mais rápido do que a nossa capacidade de absorver e ler este universo de informações. A digitalização de dados têm contribuído com um rico cenário para todos tipos de conhecimentos em variadas áreas. Os cadastros institucionais e sociais, cada vez mais comuns, vêm ampliando as informações disponíveis para todo tipo de estudo, diagnósticos e análises. Nesta toada, também se desenvolvem indicadores sociais, que unidos, transforma-se em cada vez mais complexos índices sociais, muito úteis para as mais diversas análises e tomadas de decisões. Certo?

Pois neste contexto, o território vai se mostrando um conceito fundamental, fazendo-se necessário um entendimento mais profundo do lugar em que as pessoas constroem suas vidas, a geografia humana, as paisagens que se transformam, o ambiente transmutado, a terra, suas produções, as disputas por poder, os grupos, suas identidades, potencialidades e vulnerabilidades sociais. O olhar analítico sobre o território deve ser sensível e criterioso, aspectos que exigem um exercício que necessita ser mais abordado por pesquisadores, os técnicos e gestores de políticas públicas.

regões politicas SP
Exemplo de divisões políticas no mapa do estado de São Paulo. Elaboração do autor.

UM BREVÍSSIMO ESTUDO DE CASO _Usaremos alguns municípios da região centro-oeste de São Paulo devido um prévio conhecimento feito em acampo, fruto de outros estudos na região, e a disponibilidade de materiais para ilustrar as ideias que queremos presentar.

Costumamos usar o território político para análises territoriais do desenvolvimento humano, devido a facilidade do seu caráter oficial e da influência do poder público sobre estes recortes. No entanto, a análise do terreno e relevos, deve ser considerada como objeto de influência direta, pois possui relação intrínseca com a história dos lugares e suas formas de ocupação, tal como o fluxo das pessoas, e os recursos disponíveis para as muitas apropriações humana. Dos pequenos veios d’água às grandes bacias hidrográficas, os recursos hídricos (ou sua ausência) também entram nesta simbiose com o território.

mapa relevo SP grandeMapa físico de São Paulo e região sudeste, do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão elaborado pelo IBGE

Usando o mapa físico de São Paulo como exemplo, percebemos uma mudança de altitude tanto pelos desníveis do terreno, visíveis no mapa, como pelo sentido dos principais rios do estado que correm para o interior, com destaque para o Tietê e o Paranapanema para este estudo de caso. A área do planalto, que se inicia na serra do mar e segue até o meio do estado foi a primeira a ser ocupada durante o período de colonização, enquanto as regiões centrais, norte e oeste, mais baixas, seguiram outro ritmo, ocupadas durante o fluxo de expansão agrícola do final do século XVIII e início do XIX.

Mas, o que isto diz às características territoriais do oeste paulista, por exemplo?

RElevo e hidrografiaMapa físico de São Paulo e região sudeste, do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão elaborado pelo IBGE

 As regiões mais planas e elevadas costumam ser as melhores para se estabelecer uma cidade ou para construção de vias, sejam rodovias ou ferrovias, enquanto a disponibilidade de águas passa ser essencial para abastecimento das ocupações humanas, assim como para o desenvolvimento econômico.

Áreas com maior declive são mais complexas e arriscadas, regiões mais baixas, próximas de rio, formam áreas de mananciais, também impróprias para um adensamento urbano. Logo, observamos que as cidades da região centro-oeste paulista estão dispostas entre rios e rodovias ou estradas, criando um mosaico entre relevo, marcos naturais e antrópicos. A cidade de Marília, por exemplo, situa-se na parte mais ocidental da Serra de Agudos,  próxima às nascentes dos Rios Peixe e Iguapeí, é servida por duas rodovias estaduais e uma federal – a Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), Dona Leonor Mendes de Barros (SP-333), e a Transbrasiliana (BR-153). Portanto, a cidade se situa em um terreno elevado, entre as bacias de rios muito relevantes no contexto regional.

O município é considerado de grande porte, com aproximadamente 216.745 mil habitantes segundo o censo IBGE 2016. Podemos observar que o imbricamento de estradas importantes ao fluxo regional é um forte indício de determinadas características, como a significativa produção industrial, além da agrícola, comércio e serviço, e um crescimento populacional constante nas ultimas décadas, seguindo a tendência do Estado.

Perceba como a rodovia  SP 293, que liga Marília e Dracena, segue um fluxo paralelo ao traçado dos rios, no ponto mais alto da bacia hidrográfica.

Localização Marília
Município de Marília, relevo e hidrografia. Imagem elaborada pelo autor com foto aérea disponibilizada por Google maps.

Segundo informações do IBGE, estas cidades receberam diferentes fluxos de imigratório, motivados inicialmente pelo avanço da estrada de ferro (1919) e pelas lavouras de café. Hoje, conectada à importantes rodovias que ligam à capital paulista e outras grandes cidades, Marília segue um ritmo de crescimento populacional semelhante à média do estado de São Paulo.

pop marilia

Já nas fotos seguintes, vemos duas imagens que dizem muito sobre as diferentes condições da ocupação destes territórios. Ultilizamos como exemplo três cidade ao longo da rodovia SP 294 seguindo de Marília em direção a Dracena.

Primeiro a cidade de Quintana (1), localizada também em região serrana, porém alguns poucos kms a frente da rodovia SP 294, com muitas áreas de declive, próximas a nascentes de rios, a cidade possui poucos terrenos disponíveis ao avanços urbano, ou de áreas que beneficiem a produção agrícola ou industrial. Quintana, apesar do seu pequeno porte, situa-se no caminho entre Marília e dezenas de outras cidades ao longo da SP 294, possui muita influência da localização próxima ao polo urbano urbano de Marília.

Observem que, já as cidades de Bastos e Iacri (2), localizadas no cruzamento com a rodovia SP 457 que corta o vale sobre o rio do Peixe até outra rodovia (SP 284). Estes municípios possuem características mais relacionadas a produções agrícolas, pecuárias ou granjeiras, tanto pelas características do terreno, como pela hidrografia e a disponililidade de vias para circulação de pessoas ou mercadorias.

Logo, observamos que, aspectos físicos como a abundância de cursos d’água, áreas mais ou menos planas e vias de fácil acesso possuem relação direta com a vocação do município.

formas de ocupação

Estas características relacionadas ao relevo a localidade, observadas nos municípios, mostram reflexos, como podemos observar nas características de crescimento populacional, onde as cidades de Bastos e Iacri sofrem redução do número de habitantes, com uma econômica em torno da produção rural, diferentemente de Marília e Quintada, localizadas em áreas mais urbanizada ou próximas a centros urbanos, que apresentam crescimento mais estáveis.

pop bastos iacri quintana

Podemos observar que Iacri vem perdendo população enquanto Bastos, que cresceu até 2016, e então passou a ter uma taxa negativa de crescimento. Estes dados populacionais refletem uma diversidade de fatores que podem influenciar o desenvolvimento social, mas a geografia física, certamente é um componente que nos faz entender melhor a geografia humana. Com relação a economia e o mercado de trabalho, tomaremos primeiro Bastos como exemplo.

bastos relevo rio vias.png
Rodovias, Ferrovias e principais rios da refião de abrangencia do município de Bastos.           Fonte: http://visualizador.inde.gov.br

Conforme podemos observar no mapa acima, a cidade de Bastos está localizada entre o Ribeirão da Fartura  e a estrada SP 457, o Rio do Peixe e SP 294. A foto abaixo dá indícios de  uma hidrografia entrecortada, com influencia de estradas que acabam caracterizando uma variedade de pequenas e médias propriedades rurais no território, enquanto as terras mais a direita, pertencentes ao município de Tupã, mostram recortes maiores, relacionados a grandes propriedades rurais de monocultura.

ribeirões bastos e iacri.png

Um “zoom” maior no terreno, e percebemos que, além de propriedades maiores, produtoras de monoculturas agrícolas, o município também possuem pequenas propriedades com sítios ou chácaras produtores de gêneros granjeiros.

bastos.png

  Estas observações estão longe de encerrar uma análise, mas são informações preciosas quando consideramos outros indicadores territoriais sobre a sociedade ou a economia local e regional.  O mapa abaixo mostra algumas divisões políticas do Estado de São Paulo, onde se dão as políticas públicas em diferentes instâncias. Além das disputas de poder e incentivos governamentais restritos a estes marcos geográficos do mapa político, a escolha do raio de influência do território deve levar em consideração outras características.

Iacri, apesar da grande proximidade com Bastos, mostra paisagens pouco diferentes às de Bastos, com menor diversidade de produção na área rual, mostrando propriedades de maior porte, dedicadas a culturas agrícolas de monocultura. Assim como a vizinha Bastos, a cidade se situa próximo a um ribeirão, o Copaíba, que deságua no rio Iguapeí. Um fato importante que podedemos observar é o acesso à cidade, que se dá, além da SP 294, por outra via, esta de menor porte, provavelmente voltada mais para a produção agrícola, que leva à Rodovia Assis Chateubriante (267).

iacri

Curiosidade: Iacri surgiu como um pequeno povoamento, por influência da estrada de ferro no começo do século XX. Esta foi uma ocupação resultante do loteamento da fazenda Guataporanga, com terras à margem esquerda do rio Aguapeí, possível de ser percebido pelo traçado urbano mais planejado. Já o município de Bastos, originou-se da Fazenda Bastos, onde ocorreu a fundação do município em 1928, por Senjiro Hatanaka, enviado pelo governo japonês para procurar terras para receber as levas de imigrantes japoneses. Após ciclos de culturas como o café, algodão, sericicultura, a partir de 1957, o município descobriu sua vocação econômica: a avicultura de postura.

Anúncios